quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"CAMINHO DA SANTINHA" VAI FECHAR


O “Caminho da Santinha”, no sopé do Morro do Farol, em Torres, vai ser fechado. Existe risco de deslizamento de terra e desmoronamento do morro.

O local é um ponto de atração turística e de romaria de fiéis de N.S. Aparecida. Reuniões entre a Prefeitura e o Ministério Público do Estado já foram realizadas. Na última delas, dia 18 de janeiro, o MP deu um prazo de 20 dias úteis – a expirar dia 15 de fevereiro – para que a Prefeitura impeça o trânsito de pessoas no local e busque uma outra área para colocação da imagem da santa.

Segundo a Assessoria de Imprensa do MP consultada ontem pelo DIÁRIO Gazeta, a prefeitura é a responsável pela área e deverá remover o piso de concreto que costeia o Morro do Farol, recompor a vegetação de forma a dificultar o trânsito de pessoas pela área, colocar placas de aviso (já existem duas alertando sobre o perigo de desmoronamento) e encontrar um novo local para colocação da imagem da santa.

Incrustada no morro do Farol existe uma pequena gruta com acesso por duas escadarias, onde há uma imagem de N.S. Aparecida. Ali os fiéis depositam oferendas e pagam promessas. Esse pequeno santuário foi criado há cerca de 20 anos, bem como cimentado o caminho de terra natural. No início era até iluminado, mas o sistema foi retirado também por ação do MP.

Os fiéis recolhem água que verte do morro e colocam placas de agradecimentos a graças alcançadas. É comum também a realização de missas no local. Ocorre que já há algum tempo vem se verificando deslizamentos de terras e pedras do morro. Há cerca de 20 anos uma enorme pedra pesando toneladas despencou da face Leste do Morro do Farol. O Morro do Farol é um dos três que compõem as “Torres” e dão origem ao nome da cidade. Essa trilha era usada há 2, 3 mil anos pelos índios Carijós e Arachanes que habitavam a região.

O morro é formação vulcânica que foi se depositando em camadas há milhões de anos. Sua origem é a mesma da Serra do Mar. As pedras estão sobrepostas uma às outras. Além da infiltração da água da chuva entre as rochas, existem trilhas turísticas pelo meio do morro e atividades de “rapell” (escalada com cordas). O “Caminho” é freqüentado diariamente por milhares de turistas, veranistas, moradores e fiéis.

Seg, 30 de Janeiro de 2012 22:16Fonte: Diário Gazeta de Torres

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Há um século no Correio do Povo




Pesquisa e edição: DIRCEU CHIRIVINO | Chirivino@correiodopovo.com br CORREIO DO POVO

O porto das Torres
CP MEMORIA


Nova tentativa de construcção
Negociações a respeito


No Itajubá, partiu, hontem, para o Rio de janeiro, onde demorar-se-á um mez, o sr. Alfredo Dillon, commerciante da praça da capital ingleza. Ha dias que o dr. Dillon se acha­va em Porto Alegre, tendo vindo de Londres em companhia do seu se­cretario, sr. A. M. dos Santos, tam­bém do commercio daquella praça O sr. Dillon, que é rio-grandense, desde que transferiu residência pa­ra a Inglaterra, ha 20 annos, tem feito, nesse paiz, efficaz propagan­da do Rio Grande, quer nos centros commerciaes, quer no mundo finan­ceiro.

Possue elle, em seu estabelecimen­to commercial, amostras de todos os productos agrícolas e industriais do Rio Grande.

O tema principal de sua viagem ao Brazil foi tratar da construcção do porto das Torres, empreza que to­mou a peito desde 1891, e por cuja realisação muito se tem esforçado. Naquella época, o sr. Dillon chegou a obter do então presidente da Re­publica, marechal Deodoro, uma concessão para a construcção do porto das Torres. Tendo, porém, sido demoradas as obras, o praso da concessão exgotou e o privilegio caducou. Nesses trabalhos, foi elle auxiliado pelo finado dr. Trajano Viriato de Medeiros.

Vendo o seu trabalho perdido, o dr. Dillon recommeçou campanha, ten­do tido ensejo, agora, em sua via­gem para o Rio Grande, dc se esten­der a respeito, no Rio, com o sena­dor Pinheiro Machado Este, em conferencia com o sr Dillon, declarou-lhe que, si fosse preciso, envidaria todos os seus esforços para a abertura do porto das Torres.

O senador Pinheiro prometteu es­crever, nesse sentido, aos drs Car­los Barbosa, presidente do Estado, e Borges de Medeiros, chefe do par­tido republicano.

Aqui chegando, o sr. Dillon procu­rou, logo, o presidente do Estado, com quem teve demoradas confe­rencias.

Mostrou elle as grandes vantagens dessa obra, para o Rio Grande do 5ul, principalmente para a região serrana, que por ali poderá, perfeitamente, exportar gado. Disse elle que, actualmente, apezar dos agricultures do município de Torres já estarem sobrecarregados de impostos, a renda municipal, ali, é exigua, provindo, dahi, a decadên­cia da villa.

Fez ainda considerações sobre o importante empreendimento, procu­rando demonstrar que a construcção do porto de Torres offerece mais vantagens que as obras da barra do Rio Grande. Com relação a estas, citou, ao presi­dente do Estado, as palavras do senador Pinheiro. Mostrou, tam­bém, mappas e photographias da villa de Torres e dos tres outeiros de pedra e terra, situados na praia da villa, quasi a prumo, pelo lado do oceano, e chamados Torre do Norte, Torre do Meio e Torre do Sul. O dr Carlos Barbosa manifestou sympathia pela iniciativa do sr Dillon e prometteu estudar a ques­tão, dizendo ser provável que o governo do Estado faça esse importan­te melhoramento, tão vantajoso para os rio-grandenses. Accrescentou que, caso fique decidi da a execução das obras, o governo ou fará um empréstimo, para realisá-las, ou fornecerá o material ne­cessário a quem se encarregar das mesmas.

O sr. Dillon, em resposta, disse que si fôr fornecido o material, elle se encarreeará de arranjar, na Europa, o capital preciso.

Conversas com Borges de Medeiros

O sr. Alfredo Dillon também confe­renciou, duas vezes, com o dr. Bor­ges de Medeiros, que louvou o seu patriotismo e os seus esforços em prol do Rio Grande
Caso se faça, no novo porto será construído uma linha férrea que ligará Torres a Porto Alegre.

Notícias publicadas no Correio do Povo de 30/7/1911

Porto das Torres - O dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republi­cano, recebeu do dr. Homero Baptis­ta, deputado por este Estado, o se­guinte Telegramma: "Rio, 10 - Bancada apresentou, ho­je, conforme vossa indicação, pro­jecto autonsando presidente da Re­publica realisar, mediante concurrencia publica, obras necessárias construcção porto das Torres, accôrdo decreto 14 de fevereiro 1907, podendo ettectuar crédito Abraços Homero Baptista " Noticia publicada no Correio do Povo de 12/8/1911


A grafia de época está preservada nos textos acima

N. R. - Segundo a noticia acima, des­de 1891 se cogitava a construção de um terminal portuário em Tor­res. Em nossas pesquisas diárias até a presente data, não flagra­mos outras informações consistentes sobre o assunto.




sábado, 3 de setembro de 2011

O inimigo que não veio


Soldados da Brigada Militar entrincheirados na divisa
 do Rio Grande do Sul com Santa Catarina em 1961 
Crédito: ACERVO DO MUSEU DA BRIGADA MILITAR / DIVULGAÇÃO / CP
Parecia cena de filme. Um grupo de jovens soldados, na faixa dos 20 anos, parte de Porto Alegre em direção a Torres, no Litoral Norte, para proteger o Rio Grande do Sul de uma possível invasão da Marinha. No percurso, entoam "Canção do Expedicionário" e recebem o apoio da população. "Da avenida Assis Brasil até Gravataí havia muita gente na rua abanando e chorando, como se fosse um desfile militar", recorda o coronel reformado da Brigada Militar Jerônimo Santos Braga.

Foram duas semanas de tensão, em setembro de 1961, à espera de um inimigo que não veio. Dizia-se que a Marinha já estava preparada para promover um desembarque na costa gaúcha, a fim de combater a resistência comandada por Leonel Brizola em defesa da Legalidade. Por isso, era necessário proteger Torres, porta de entrada para o litoral do Estado. Para que o policiamento das cidades não fosse prejudicado, boa parte dos soldados enviados a Torres era formada por jovens alunos do terceiro ano do Centro de Instrução Militar - caso de Braga, que na época tinha 22 anos. Ele e os colegas não tinham a noção exata da gravidade da situação, mas prontamente responderam ao chamado. "O que mais nos movia era aquela coisa do espírito de tropa, de ser gaúcho e estar em um evento importante", explica Braga, hoje com 72 anos. Inspirado no avô Jerônimo Teixeira Braga, morto em combate como oficial comissionado, em 1932, o jovem havia ingressado na Brigada Militar aos 17 anos.

Mesmo que o combate tenha sido evitado, os dias em Torres foram marcados por contratempos. A começar pela viagem: o comboio com cerca de 80 veículos levou mais de 12 horas entre Porto Alegre e o destino final, percurso que em condições normais pode ser feito em três horas. Mas, em uma situação de guerra, todo cuidado é pouco. "Havia a observação da força aérea de que à noite os veículos tinham de trafegar a uma certa distância e sem luz", justifica o então aluno-soldado.

Ao chegar em Torres, por volta das 6h, a primeira surpresa: um avião sobrevoou o local onde as tropas estavam situadas. O comandante da companhia, capitão Odilon Chaves, tratou de conter os mais exaltados, pedindo que ninguém atirasse. Mais tarde, a frustração: o café da manhã não fora providenciado e os soldados ficaram sem comer. O mesmo ocorreu com o almoço e a janta. Para piorar ainda mais, chovia muito e, à noite, não foi possível terminar a montagem da posição. "Tivemos de dormir enrolados em lonas, fora dos abrigos, que estavam cheios d''água", conta Braga. A recompensa veio no dia seguinte, quando cada soldado recebeu café preto com graspa e duas bananas.

A linha de defesa foi montada em meio aos morros de Torres, próximo de onde hoje está localizada a Estrada do Mar. A rotina consistia, principalmente, em cavar buracos e preparar os abrigos antiaéreos para se proteger de uma invasão. "É uma movimentação estratégica para informar ao adversário que estamos preparados. Nos deslocamos para isso e para tentar dissuadi-los (a invadir o RS)", diz Braga. As unidades mais próximas ao mar ficavam atentas às luzes que pudessem surgir na água, sinal de que o inimigo se aproximava. Durante o dia, os soldados evitavam se deslocar para não serem percebidos pela observação aérea. O temido desembarque dos navios não ocorreu porque, segundo a imprensa da época, o "mar estava grosso". "Mar grosso é o mar muito picado, com muita onda, revolto e que impede a estabilidade das pequenas embarcações", explica o coronel reformado. No livro "Nós e a Legalidade", o capitão Odilon Chaves afirma não ter notado grandes alterações no mar. A tropa, então, passou a ser chamada de "mar grosso", pois acreditava-se que a presença da Brigada Militar, e não as águas revoltas, havia impedido a invasão.

Em um certo dia, Braga e um colega foram designados a instalarem-se em local longe do acampamento, onde acenderam uma fogueira para despistar o inimigo sobre a localização da tropa. Logo apareceram alguns agricultores, de quem os soldados compraram alimentos. Famílias e muitas crianças moravam nas redondezas. Foi então que o jovem soldado percebeu que o combate não ocorreria. "Certamente eles sabem que há civis e crianças aqui", disse Braga aos colegas na época. Três dias depois, a tropa recebeu ordem para voltar a Porto Alegre.

Com ou sem mar grosso, Braga considera positivo o desfecho daquele episódio - já que as consequências de um enfrentamento poderiam ser trágicas. "Haveria muitas mortes principalmente para a população civil. Imagine Torres sendo bombardeada", afirma. O coronel entrou para a reserva da BM em 1990, foi presidente da Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (Corag) e hoje dirige a editora da Pontifícia Universidade Católica do RS (Edipucrs). Apaixonado por comunicação, guarda em seu gabinete o rádio pelo qual a mãe ouvia, aflita, as notícias sobre o combate que não aconteceu. Ciente de que cumpriu o seu dever, hoje ele brinca ao contar a aventura para o neto. "A guerra não saiu de preguiça, mas que eu fui, eu fui."
ANO 116 Nº 335 - PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 31 DE AGOSTO DE 2011   ESPECIAL > correio@correiodopovo.com.br


sábado, 27 de agosto de 2011

O porto de Torres

um século no Correio Povo
Pesquisa e edição: DIRCEU CHIRIVINO I chirivino@correiodopovo.com.br
No dia 21 de agosto de 1911 não houve edição do Correio do Povo. Na época o jornaI não circulava às segundas-feiras.
 O Porto de Torres

Quanto ao porto de Torres, é uma velha aspiração de todo o Estado, principalmente da zona do norte, que precíza de um porto no littoral, para a sua expansão e progresso.

Nenhuma ocasião é mais propicia que esta para se conseguir do governo da União um favor
. Na presidencia da Republica está um rio-grandense, e como leader da politica nacional outro, assim como um outro tambem como leader da maioria da Camara dos Deputados.

O Rio Grande, pois, domina a politica geral do paiz, e seria um desastre si não conseguissemos esse melhoramento, que é de interesse vital para o desenvolvimento do Estado.

Pudessemos nós, e esta
fita exhibiria aos olhos do Congresso Nacional todas as vantagens que nos adviriam si nos dessem o porto de Torres, e, por certo, nunca uma fita se desenrolaria com maior successo.

Max Linder

Crônica publicada no
Correio do Povo de 13/8/1911
A Grafia de época está preservada nos textos acima 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

MANIFESTO: POLO DE CINEMA EM TORRES




O mundo inteiro acompanha com preocupação o desenrolar da crise econômica mundial que arrisca extravasar para o campo social e político. Grandes e pequenas nações estão em busca de forças motrizes alternativas, capazes de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento compatível com as exigências de uma Nova Era marcada pelo peso dos serviços na economia e com a crescente importância da inteligência neste processo. A cultura já não é um adorno das classes privilegiadas. É um vetor decisivo da economia, especialmente no campo do turismo, quando se converte em empregos e renda. A combinação, então, de belezas naturais com atrativos culturais potencia a vocação turística de muitas cidades adequando-as a esses novos tempo. Parati, no Rio de Janeiro, tornou-se, com o Festival Internacional de Literatura, numa referência mundial. Gramado, aqui no RS, não foge à regra e fez de dois eventos culturais – o Natal Luz e o Festival de Cinema – o esteio de seu sucesso.

Torres é a mais bela praia do Rio Grande do Sul. Mas não pode viver eternamente à espera dos bons verões. Deve transcender sua majestade paisagística com novas atividades que a projetem como um grande pólo do turismo nacional e até internacional. O cinema, junto com outros eventos culturais, ligados à literatura, à gastronomia e à moda, podem lhe dar essa projeção. Trata-se, o cinema, de uma das mais prósperas indústrias do mundo e, em razão da crescente demanda de produtos áudio visuais , tende a se diversificar e ganhar ainda mais relevo. Com a vantagem das novas condições tecnológicas, diversas cidades no Brasil , a exemplo de Goiás Velho em Goiás, Araranguá, em SC, e alguns municípios do interior paulista, estão se transformando em verdadeiros pólos de atração de investimentos, talentos artísticos e de cursos de formação de profissionais do áudio visual – cinegrafistas, editores de vídeo, cenógrafos, figurinistas, atores etc. Torres já tem uma certa tradição em cinema. Três filmes foram rodados aqui, o primeiro deles, ainda nos anos 50 numa provável iniciativa de Alberto Ruschel.

Temos que aproveitar as condições naturais de Torres para dar um salto para o futuro. Vamos montar , aqui, o POLO DE CINEMA DE TORRES. Basta uma iniciativa da Prefeitura Municipal e algumas gestões com a ULBRA e SENAC, no sentido da criação de novos cursos ligados ao treinamento de pessoal para a indústria áudio visual para que isto se converta em realidade num curto espaço de tempo. Dois pontos de partida são fundamentais: (1) uma boa sala de cinema, que já temos, no Dunas Flat e que pode ser adquirida pela Prefeitura para sediar um Festival Anual de Cinema e (2) um galpão para uso das produtoras e diretores de filmes, que bem pode ser o ginásio da Lagoa, hoje abandonado e em vias de demolição. Com estes passos e franco apoio da Sociedade torrense poderemos transformar nossa cidade na referência rio-grandense do áudio-visual.


Pelo POLO DE CINEMA de Torres . Todos à LUTA.

Em Torres, 04 de julho 2011

PAULO CEZAR TIMM – Editor de Torres Revista Digital

Subscrevem:

Edgar Henrique Klever
L.Gonzaga Inácio
Bento Barcelos da Silva
Padre Leonir – Radio Maristela
Juarez Espindola
Nilson Rodrigues da Silva
Edison Estevão

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Mistério: os ossos achados em Torres

A rotina de Torres foi quebrada com o achado de duas ossadas humanas durante uma escavação. As hipóteses são muitas, mas apenas uma é aceitável.
21 de Maio de 1973 – Folha da Manhã

Sexta-feira de manhã, quando as pás dos operários, Pedro Manoel da Rosa e Edu dos Santos Cardoso, tocaram nas ossadas de duas pessoas num terreno do centro da cidade balneária de Torres, a rotina do lugar estava sendo quebrada. E logo em seguida, depois da formal comunicação ao delegado de policia, tomou-se uma decisão para tentar elucidar o mistério: convocou-se uma reunião das pessoas mais idosas, que foi realizada no sábado, com alguns resultados satisfatórios.
Empregados da Construtora Ernesto Woebeke, os operários cavavam os futuros alicerces do Centro Comercial de Torres, num terreno próximo à Sociedade de Amigos da Praia de Torres (SAPT), na Rua José Picoral, quando suas pás tocaram nos ossos de um crânio. Nas escavações seguintes, já comandadas pelo delegado Rubens, descobriu-se outro crânio menor, partes das ossadas de duas pessoas e os retos de um caixão adornado com rendas e linho.
Muitas hipóteses
Algumas das hipóteses levantadas para explicar o achado poderiam ser consideradas absurdas. Uma delas dizia que os mortos seriam prisioneiros das forças legalistas da revolução de 1893, quando mais de mil homens estiveram acampados em Torres. Diz-se que, na época, vários prisioneiros e desertores foram degolados e enterrados na região. Outra hipótese: os ossos seriam de escravos ou, quem sabe de jesuítas.
No sábado de manhã, o delegado Rubens, que já tinha também as duas hipóteses, um crime passional, em que o marido mata o casal de amantes e enterra nos fundos de casa ou duas vítimas de uma peste como a varíola, resolveu chamar pelo rádio, “todas as pessoas que estejam a par da história do município”.
À tarde, os depoimentos dos historiadores ou simplesmente pessoas de idade avançada começavam pela reconstituição do lugar. O terreno vizinho à sede da SAPT foi comprado há três anos, pelos proprietários do Farol Hotel aos herdeiros do desembargador Vieira Pires, que residiu lá por mais de 25 anos, informou Olinda Cidade Resende, 53 anos, filha de um pesquisador da história da cidade, já falecido. O local onde foram achados os ossos era o pátio da casa de estuque.
Manoel Alexandre Gonçalves, o Nequinho Alexandre, 73 anos, reside próximo ao local há 35 anos: “Quando eu era guri novo, havia ali uma cruz, que não sei por que chamavam de Santa Cruz. A procissão de São Domingos, saída da igreja e fazia uma parada ali na cruz onde todos rezavam. Eu ouvia dizer que um casal pedirá para ser enterrado junto no morro”.
Segundo Nequinho Alexandre, quando a casa do desembargador foi construída a cruz já não estava mais. E conta que, por volta de 1930, “ali foi o armazém de Eliomar Martins, que fornecia comida para as forças getulistas, que pagavam com vales e talvez por isso o Eliomar morreu pobre”.
A existência anterior dessa cruz comprovada pelos depoimentos de muitos moradores antigos, começou a desfazer uma parte do mistério. O advogado Moises Camilo de Farias, 73 anos, ex-prefeito de Torres, subitamente viu-se envolvido em lembranças do passado: “Era uma cruz de madeira, com um metro e meio mais ou menos. Estava encravado num pedestal de escadas, feito de estuque (composição de barro em armação de madeira) coberto com cal. Nós crianças, brincávamos em redor dela e os adultos promoviam festas religiosas na Santa Cruz”.
As palavras do ex-prefeito, somou-se o depoimento de outra ex-autoridade, o exator aposentado Idilio Ferreira Porto, 82 anos, que acrescentou que a cruz foi transferida “para o lago norte da Igreja de São Domingos das Torres talvez há mais de 35 ou 40 anos”. Mas também criou uma dúvida: “Nunca ouvi falar que houvesse alguém sepultado sob a cruz. E ali também nunca foi cemitério, disso tenho absoluta certeza”.
Versão aceita
No fim da tarde de sábado estava sendo aceita uma versão para justificar a procedência do achado: seriam os cadáveres dos doadores de uma sesmaria de terra para a igreja. Mário Krás Borges, pesquisador da história do município, diz que o historiador Dante de Laitano encontrou documentos da doação, que teria sido feita pelo Império as famílias Rodrigues e Martins. E seguindo a tradição da época, quem ganhava sesmarias costumava doar uma parte a algum santo. E a igreja de São Domingos das Torres teria se originado assim.
Na colônia de pescadores da margem esquerda do rio Mampituba, do lado catarinense, moram os bisnetos de Manoel Rodrigues. Eles supõem que os ossos encontrados sejam de seus bisavós, Manoel Rodrigues, o Neco, e Cândida Maria Purcina. Eles receberam, em data que ninguém sabe especificar as terras onde hoje é o centro de Torres, Neco doou uma légua em quadra (seis quilômetros quadrados) e foi morar em outras terras, de duas léguas e meia em quadra, do lado catarinense.
Manoel Rodrigues, bisneto de Manoel Neco Rodrigues, não afirma que os ossos encontrados nas obras do Centro Comercial de Torres sejam de seus bisavós. Mas garante que, “se for um homem e uma mulher, podem ter certeza que são eles. Quando estes doaram o terreno para o santo, pediram para serem enterrados ali. Não lembramos bem o local, porque tudo era campo aberto, mas  ficava naquele morro onde esta a cidade”.
E Maria Batista da Silva, 82 anos, “antiga amiga dos Rodrigues”, garante que os ossos são do “velho Neco e sua mulher. Eu conheci a cruz que ficava no pátio da casa. Quando eu era menina, minha mãe dizia que ali estavam enterrados o Neco e a dona Cândida.
As mesmas dúvidas
Esta semana, quando as ossadas forem enviadas ao IML para entre outras coisas, precisar a data aproximada da morte, a situação pode ficar ainda mais confusa que agora. Segundo a memória dos velhos moradores de Torres e dos descendentes de Neco Rodrigues, os ossos seriam da metade do século passado e nada indica que pudessem manter-se praticamente intactos, inclusive com madeiras dos caixões ainda com pedaços de rendas.
O achado, que provocou o encontro animado das pessoas mais antigas de Torres durante dois dias, também serviu para que todos, lembrassem o velho Neco Rodrigues, um homem abastado que tinha 80 escravos e enormes extensões de terras no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Segundo seus descendentes, a igreja São Domingos das Torres foi construída pelos presos da Fortaleza de Ipiranga em 1824. Mas teria sido Neco Rodrigues que mandou construir o muro de pedra da Torre do Centro (há uma torre do sul e outa do norte da cidade), que seria um potreiro para reunir cavalos.
21 de Maio de 1973 – Segunda-Feira
Dos arquivos do Correio do Povo
Reportagem pesquisada pelo historiador João Barcelos da Silva

sexta-feira, 10 de junho de 2011

As Torres


A uma légua, (6,6 Km), mais ou menos, da foz do rio Mampituba, a praia que desde o morro de Santa Marta tem corrido em dunas arenosas, acha-se interrompida por um fenômeno geológico, que desperta a imaginação fatigada pelo espetáculo contínuo de uma monótona aridez: no meio desse deserto nublado de areia e d’água, aparece repentinamente um monumento natural dos mais curiosos: na borda do oceano levantam-se verticalmente três massas cilíndricas, as quais, em razão de sua forma, foram chamadas: as Torres; essas massas, aparentemente formadas de gneiss, batidas, e arruinadas incessantemente pelas ondas, em que se assentam da parte de Este, oferecem, à sua circular sobre o Oceano, rochas salientes em agulhas verticais, aderentes por sua base ao corpo mesmo de massa inteira, e que parecem os restos de ma cortiça exterior, já de muito tempo roída pelo mar.

            Esses paralelepípedos lapídeos, sobranceiros ao Oceano, fazem corpo por sua face oposta com as terras adjacentes, inclinando a Oeste suas sumidades, coroadas de verdura, até as pôr ao nível com o plano superior do terreno circunvizinho: a altura das Torres parece variar entre 70 a 100 palmos (15,40 m e 22 m); isoladas, entre si diferem  também de diâmetro, mais ou menos, de 20 braças, (44 m); é escarpada a Este e ao Sul, mas ela projeta ao Norte, na direção da praia, um plano inclinado formado de areia, que a faz, facilmente acessível desse lado; no alto daquela Torre, e sobre o terreno que prolonga sua sumidade a Oeste, estabeleceu-se a guarda e povoado das Torres, espécies de fortaleza natural na fronteira da Província.
            A 60 braças, (132 m), mais ou menos, da primeira Torre, levanta-se a segunda, menor diâmetro; e menos 15 braças, (33 m) desta aparece a terceira, que se acha quase ligada com a precedente por um rochedo piramidal intermediário, da mesma substância, e de forma assaz regular. O cume das duas últimas torres é coberto de uma belíssima relva; inclinando-se brandamente a Oeste até ao nível da estrada, que passa por trás e junto daqueles curiosos edifícios da natureza.
            Uma légua (6,6 m) ao Sul das Torres acha-se o outeiro verdejante de Itapeva, igualmente encostado a uns rochedos baixos, que o defendem do lado do mar: esse é o limite do oásis ao Sul, e o último suspiro de uma natureza acidentalmente aprazível; além, continua a eterna e triste cena das areias e da esterilidade.


Nicolau Dreys
Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro.
1839